SE A CANOA NÃO VIRAR
- 03/2009
Neumar
Monteiro
A
grande surpresa de 2009: as marchinhas de carnaval voltaram! A novidade foi
anunciada com alegria, já que as marchas sempre foram instrumentos de protestos
políticos, chacotas e reivindicações populares. Toda implicância levava ao
personagem e o povo sabia disso; não havia quem se livrasse da “Mamãe eu quero
mamar”, “A Maria ta”, “Sassaricando”, “O Boi da cara preta”, “Lata d´água na
cabeça” , “Me dá um dinheiro aí”, “Quero chorar” e tantas outras que alertavam
os governantes das necessidades de um povo sofrido sob o comando autoritário de
uma chefia impopular.
Na
verdade as marchas eram o que de melhor havia nos carnavais passados justamente
pelo valor democrático que permitia a cobrança, dizendo, na boca da folia, que
alguma coisa ia muito mal; sem dúvida, mais eficientes que o voto popular que
pode ser comprado.
A
canoa que vira é a própria vida e as coisas passageiras que dela desfrutamos.
Quem pensa que o dia de maré mansa perdura para sempre pode tirar o cavalinho
da chuva, porque sempre haverá a inclemência do sol. Um minuto de esperança
pode ser véspera de um amanhã sombrio. Por que tantas controvérsias abaixo do
céu?
A
canoa vira quando mostramos a face tenebrosa da maldade camuflada no sorriso
falso e lisonjeiro da mentira; quando, constituídos em autoridade, prejudicamos
o próximo perseguindo e caluniando; quando, podendo fazer o bem, escolhemos a
omissão.
Tanta
sabedoria nas ingênuas modas carnavalescas! Quando foi que calamos o protesto,
engolimos sapos e deixamos avermelhar a cara sem vergonha? Quando foi que
colocamos à deriva a canoa da nossa vida? Não é desilusão de início de ano… É
algo maior que vem sendo esquecido dentro de nós: como a incapacidade de lutar
pelos nossos direitos ou a apatia de não agir.
Se
a canoa não virar, não mudamos. O futuro precisa de carnavais com marchas, de
povo sem máscara, de vida com graça, esquecer da cachaça, evitar a desgraça e
limpar a vidraça para que os olhos possam vislumbrar um novo amanhã. E,
saudosamente, concluímos: “eu mato quem roubou minha cueca pra fazer pano de
prato!” Até isso passaram a mão.
O BRASIL DO PRECONCEITO
Revista Status
Neumar
M. Silveira
Há quem
pense que preconceito diz respeito somente ao aspecto racial. Pelo contrário,
preconceito é algo muito mais profundo que se mescla ao sexo, à pobreza, ao
analfabetismo, à raça etc.
A
Constituição Federal, no título de Direitos e Garantias Individuais, preconiza
que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”,
abomina a privação de direitos por qualquer motivo de crença religiosa ou
convicção filosófica ou política; pune “qualquer discriminação atentatória dos
direitos e liberdades fundamentais”, e considera a prática do racismo
“crime inafiançável e imprescritível sujeito à pena de reclusão”.
Muito embora
toda a proteção garantida na Carta Magna contra os preconceitos e
discriminações, o Brasil, infelizmente, continua a promover crimes dessa
natureza quando se presencia cadeias públicas abarrotadas de negros e pobres,
quando assistimos a economia brasileira privilegiar o rico e condenar à penúria
o proletário, quando a mulher ganha menos do que o homem para trabalho igual,
quando o aidético fica sem teto, quando proliferam as favelas, quando...
O Brasil
verde e amarelo transforma-se, paulatinamente, num negro desfilar de
vilipendiados, vítimas das injustiças sociais, grei de inditosos cidadãos que,
de tão tripudiados em seus direitos e garantias fundamentais, ficaram roxos de
fome e de frio.
Preconceito
é algo muito maior e mais terrível: é a chaga viva de uma sociedade, que se diz
moderna e pronta a ingressar no século XXI, mas que debocha da vida humana e
escarnece de solidariedade cristã.
Como se
bastasse uma Constituição para mudar cabeças!... O problema do nosso País é de
base educacional, pastoral, religioso, familiar e econômico-cultural. É,
sobretudo, um problema governamental, quando vemos a feitura de leis em causa
própria e a decadência dos pilares políticos, administrativos e judiciários,
chafurdados na lama dos escândalos das doações e apropriações torpes e
indébitas.
Brasil do
preconceito, sim. Preconceito, principalmente, por abraçar o erro e repudiar o
certo, aplaudir a hipocrisia e desprezar a verdade e acalentar as injustiças
provocando a desordem social, inversão de valores nunca vista em cada esquina,
beco ou praça, espreitando os passos dos desfavorecidos da sorte.
MINHA MÃE - (AINDA E
SEMPRE)
Neumar
Monteiro
Partiste e eu fiquei.
A saudade a roer-me
e o pranto a torturar-me.
Mas sei que embora
eu não a veja, mãe,
tu estás comigo,
qual anjo tutelar
a encaminhar-me.
É triste, ó mãe!
A dor que em mim deixaste.
E nos momentos saudosos,
em que choro comovida,
sinto teus braços a embalar-me,
como fazias quando estavas viva.
Tua lembrança, creia-me
Em tudo ainda mora.
Tua voz sempre em minh’alma ecoa.
E ao lembrar-me, querida,
de como foste boa,
sufoco meus lamentos
e peço a Deus por ti!
SER MULHER
Neumar
Monteiro
Ser mulher é ser mãe,
por Deus a escolhida,
para o nascer da vida.
Ser mulher é expandir
a meiguice e o amor
aonde quer que for.
Ser mulher é ser dinâmica,
atuante e complacente...
É, sobretudo, ser gente.
Ser mulher é ser perdão,
abraçando a todos
como a um irmão.
Ser mulher é ser grande
nas pequenas tarefas.
É ser o ombro amigo
nas horas incertas:
Na injustiça é voz que redime,
Na política é brado que exprime,
Na caridade é mão estendida.
Na luta é coragem latente,
No trabalho é virtude frequente,
Na guerra é mensagem de vida!
UM NOME DE MULHER
Neumar
Monteiro
Mulher, mãe, companheiras...
carinho que não se acaba,
do amor as mensageiras,
mãos que tecem o destino
nas tramas de mil canseiras.
Velando o filho que a vida
lhes pedem trabalhadeiras,
e a luta que vai de dia
segue por noites inteiras.
Sempre atentas, sempre vivas,
na faceirice, brejeiras...
Quem se importa que lhes doam
moléstias bem traiçoeiras?
No rosto desenha faces
de Marias brasileiras.
De outras tantas mulheres
que a sorte quer fadigueiras :
Severinas, Madalenas,
de lidas madrugadeiras.
Fortes, porém, todas essas,
que não conhecem leseiras.
Que em casa ou fora desta
estão no batente – certeiras.
Mulher, seu nome é CORAGEM
que desconhece barreiras!
UM TROMBONE
DESAFINADO - 02/2009
Neumar
Monteiro
Não
é possível que nossa cidade permaneça enfrentando situações que já
transbordaram a paciência, quais enchentes e problemas políticos, como se nunca
terminassem tais dissabores. O povo necessita de sossego, não só para cuidar
das muitas feridas ocasionadas por fenômenos naturais como as geradas por
desconfianças e ódios. Basta disso! É tempo de retomada da paz, que só o
diálogo consciente é capaz de proporcionar.
Em
outra época, antes dos dias atuais, era comum a prática do encontro, quando os
olhos transmitiam sinceridade. Bastava isso: um olhar falava e entregava tudo.
Havia amizade e respeito mútuo; os casos perdidos eram deixados de lado ou
excluídos da roda de amigos. Eram importantes os valores éticos como guardar
segredos, ajudar o necessitado, evitar a preguiça e trabalhar pelo bem comum.
Em que esquina esquecemos a nossa face?
As
causas públicas refletem o nosso trabalho ou o nosso desleixo. Se bem
direcionadas e cumpridas a contento, espelhando direitos e deveres dos
cidadãos, por certo alcançarão a posteridade. Se há má vontade ou má-fé toda
confiança cai por terra. Não há político, padre ou capitão que permaneça
inteiro com a integridade esfacelada.
O ser humano precisa da aprovação social
para seguir em frente; necessita do povo irmão para burilar o seu interior
visando sobressair o melhor de si mesmo. Quem semeia vento colhe tempestade,
quem semeia ódio colhe vingança, conforme ditados do tempo do onça.
Não
existem mais os encontros e, quando acontecem, é para falar sobre os
desencontros. O homem não foi feito para andar sozinho. A descoberta do fogo, a
luz da inteligência, o sopro da verdade, a perdição de Adão e Eva e a expulsão
do paraíso atingiram toda a raça humana. Ninguém prova o contrário. Bom Jesus
precisa de colo, de administradores de boa vontade para crescer como merece e
exercitar o perdão, e não mais fazer parte de uma orquestra de municípios atuando,
infelizmente, como um mero trombone desafinado.
SINTOMAS DO AMOR
Neumar
M. Silveira
(a propósito do soneto “Dizem de
Amor”, do poeta Athos Fernandes, meu pai)
Dizem que o amor
é promessa
Que é dádiva de Deus,
que é perfume,
que é tudo na vida.
Inebriante festa
que é beijo do sol,
que é doce lume !
Que é prisão
com grades de alegria.
Que é paz que se renova
dia a dia.
Que é visão do céu,
Que é resplendor!
Que é sonho
que transforma a realidade.
Que ofusca a tempestade
da maldade.
Que anula o sofrimento
e aclama a dor.
Que é luxúria sem igual,
que não se acaba,
mesmo que a vida
traiçoeira traga a morte inevitável
do sonhador
Que é fome
de carinho insaciável,
que é vontade de se dar
sem ver vantagens.
Que é o tesouro
que nos deu o Criador.
E assim eu fiz este poema
para aquele que se encontra
num dilema
de saber se o que sente
é amor.
Se os sintomas acima mencionados
são sentidos por alegres felizardos,
é sinal que o Cupido
já passou !
OFERENDA
Neumar
Monteiro
(Recriação do poema de Hofflman
Von Falesleben – alemão)
Sim elas sempre retornam
eternamente ecoando
dentro de mim.
Antes que as antigas
emudeçam seus acordes,
soam novas canções
na sucessão recriada
dos compassos musicais.
As melodias refletem
toda a minha vida,
mal o ouvido apreende
um som trazido do passado.
Novamente o vale verde,
atapetado de sonhos,
outra vez o azul dos montes
encantando os olhos da infância.
Música e vida, entrelaçadas,
presas no meu peito
como o coração à artéria.
Tempo de hoje unido ao ontem,
para sempre, inexorável,
enquanto uma nota musical
representar a minha saudade.
A propósito da
SEMANA SANTA
VIA CRUCIS
Neumar
Monteiro
Flor, amor, dor e paixão. Vida e
morte na
entrega do Cordeiro; mescla de lírio
e sangue
no caminho do Calvário.
Segue por tortuosa vereda o Sopro da
Verdade;
Faísca e reverbera o sol na alcova
das nuvens,
sua e sofre o Justo a infâmia da
cruz.
Breve chega a hora da suprema
desdita;
prá lá ficaram os dados jogados na
disputa,
já se repartem as puras vestes da
inocência.
Que foi da liberdade sonhada em
cativeiro?
A Esperança, afinal, fenece e
se angustia,
corpo preso no chão - alma à solta no
dia!
Quem sabe o que andará na mente dessa
gente!...
Escolhem Barrabás em louca gritaria,
e choram a dor de quem padece no
madeiro!
Cada qual sua cruz, a sorte foi
lançada!
Na incerteza da fé, a
desumana raça
deu morte a Jesus e a Barrabás a
vida,
preferindo viver como judeu sem
pátria
a aceitar a verdade do filho de
Maria.
CENA CAMPESTRE
Neumar
M. Silveira
O galo da campina
ao longe canta forte.
O dia começou,
a hora se aproxima
em que, desfeitas as dores
da noite mal dormida,
vão os homens cansados
em busca de alimento.
São espectros de si mesmos,
na luta que não cessa,
que vai de sol a sol,
do dia que começa
e só termina à noite,
quando voltam para a aldeia.
E os homens encurvados
ao peso da desdita,
que só conhecem a dor
da faina rotineira,
retornam descontentes
aos humildes casebres,
chorando os desencantos,
com olhos de poeira.
CANTIGA
Neumar
M. Silveira
Na canção que canto,
eu me completo.
É mais que o sonho,
é mais que o teto
que me agasalha as noites
e me protege dos dias.
È uma canção
dolente de saudade.
Onde se esquece tudo,
e a realidade
se nos parece bela
embora seja triste.
È cantiga de amor
que me enternece.
Que me envolve a alma
como a prece,
e traz docemente
consolo ao coração.
Ah ! Canção de nós dois,
quantas lembranças !
Meigos tempos,
os de criança,
que se perderam tristonhos
na voragem dos anos.
VOCÊ E EU
Neumar
M. Silveira
É noite. O sol de há muito se
escondem.
Nuvens ligeira e brancas,
Qual pombas imaculadas,
Vão depressa correndo encontrar a lua
!
Aqui, ao lado do meu bem,
tudo é paz, tudo é silêncio,
quebrado somente e felizmente
pelo leve sussurro de beijos em
surdina.
Que importa o futuro, meu amor,
se ele se encontra ainda tão distante
?
O presente somos nós e o nosso amor.
Eu me encontro aqui, você está
comigo,
vamos então amar, felizes e
contentes,
a contemplar a lua !
CANÇÃO DA CIDADE
Neumar
Monteiro
(Recriação do poema de Eichendorff,
poeta alemão)
Mal o sol
liberou
a calidez
dos seus raios
e os sinos
da manhã
dormitavam
no vale,
há muito já
cantei
para campos
e florestas
a canção
apaixonada
de um
coração entristecido.
A noite
ainda encobre
a relva e o
arvoredo.
Estou aqui,
sozinho,
repassando
as lembranças
de um tempo
de amor
que um dia
eu vivi.
A ave que
desperta
mansamente
em seu ninho,
imita,
sonolenta,
a canção da
saudade
liberta o
meu peito
no silêncio
do vale.
NÃO TREMA NO ANO
NOVO
Neumar
Monteiro
O
Ano Novo começa com chuva e uma nova ortografia. Na verdade uma unificação no
jeito de escrever dos países que adotam o português como língua oficial. Sem
dúvida o comércio de livros vai lucrar com a novidade, e o prejuizo, como
sempre, vai pesar no bolso do brasileiro, que tem de adquirir novas gramáticas
e dicionários para os filhos estudantes porque os do ano anterior já eram.
Triste constatação em plena crise econômica mundial.
Infelizmente
o Brasil está sempre envolvido em algo que puxa o seu tapete. Com certeza não
temos uma moeda forte, a exemplo de Portugal, e dificilmente iremos a Angola,
Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Então
perguntamos “Unificação, e nós com isso?”
Enfim,
serve o aviso: não trema no Ano Novo já que o sinal ortográfico “trema” foi
abolido. Até o nome histórico “Anhanguera” perdeu o seu e que tremam as nossas
origens. Se for escrever sobre a feiúra de alguém, faça-o sem acento agudo para
não contradizer os ditames da nova grafia. Não seja antiquado grafando enjoo,
voo, abençoo, coroo, magoo, perdoo com acento circunflexo que foi ao vento e
perdeu o assento, e as palavras ficaram desnudas sem ele… Como sair na chuva
sem sombrinha.
Não
que sejamos extraescolar, extrarregulamentação indo contra a autoaprendizagem,
nem semianalfabeto, antieducativo, antissemita ou antirreligioso, contrarregra
das novidades da escrita que grafa as palavras acima sem o hífen. Pelo
contrário, temos que ser heroicos com a ideia da assembleia de intelectuais que
aprovou as mudanças, senão a jiboia pega a nossa boia da enchente de fim de ano
e morde o nosso pé, sendo o último com acento os demais sem acento. Enfim, tudo
seminovo e ultramoderno conforme regras atuais. Continua a
pergunta “Que lucramos com isso?”
ENTÃO É NATAL
Neumar
Monteiro
Parece
que foi ontem quando as luzes do Natal ofuscavam os olhos da criança! Magia,
pura magia, que transformava o desbotado cotidiano num caleidoscópio de
variadas cores.
Quando
jovens, sabíamos que Natal era sinônimo de dezembro e esperávamos, contando nos
dedos, o mês tão aguardado. Hoje o Natal começa em novembro e vai até o Dia de
Reis, em janeiro, com o comércio apregoando as suas mercadorias. Perdeu a graça
e a espiritualidade com que a data era comemorada; banal, em meio a tantas
outras banalidades que festejamos anualmente.
Não
era assim em outros tempos: O fervor religioso preenchia o coração de uma fé
viva que pinicava no peito como rebento de felicidade. Um abraçar todo mundo,
um corrupio de emoção que transbordava dos olhos. Era o Deus vivo dentro de nós
enquanto olhávamos a manjedoura com um júbilo indescritível de saciedade
espiritual. Com a fé em baixa, perdemos a plenitude das palavras amenas e dos
sorrisos francos que foram trocados por coisas tão supérfluas que no dia
seguinte já as esquecemos. A grandiosidade da Gruta de Belém não tem mais
graça!
Num outro tempo haveria mais felicidade. Das coisas simples,
como papel crepom, faríamos estrelas; do algodão, flocos de neve para cobrir os
galhos do pinheiro; do quintal de casa o musgo seco, folhas e sementes, para o
acabamento daquela linda e significativa Árvore de Natal. Talvez não tivéssemos
reis magos, nem Maria, José e nem pastores, mas o coração transbordava de amor
ao depositar o Jesus Cristinho no presépio feito de gravetos secos.
Árvores de Natal
simbolizam a esperança de verde, fartura e renascimento da terra para alcançar
o céu, conforme os seus galhos se expandem para o alto.
Observem como as
árvores se enfeitam de flores para o Natal: os flamboyants desabrocham como
paleta de tintas; a cássia-imperial orna-se de cachos de ouro; os manacás se
vertem de branco e violeta perfumando os jardins, e os jasmins e lírios, alvos
como vestimentas de anjos, tocam trombetas para o menino Jesus. Estas são as
árvores de Natal mais expressivas e belas que a natureza divina pode nos
proporcionar.
PRIMAVERA A ESTAÇÃO DAS FLORES
Neumar
Monteiro
A
Primavera está associada ao desabrochar das flores, uma estação de belíssimo
reflorescimento da flora e da fauna terrestres: tratando-se do hemisfério norte
é chamada de “Primavera boreal” e a do hemisfério sul é chamada “Primavera
austral ”. Do ponto de vista da Astronomia, a primavera do hemisfério sul tem
início no equinócio de setembro e termina a 21 de dezembro.
Quantas
belezas coloridas crescem nos jardins!... Quanto e quanto semear de sementes
para proclamar a vida elegante da natureza... Quantas flores recolhidas para
enfeitar as igrejas e as casas das donzelas? Tudo que Deus nos dá são graças e
graças de vida, de um pequenino sorriso até o sonho sonhado na noite fria de
inverno.
Um mundo foi feito para a vida bem vivida e as claras manhãs de nossos
dias. Tudo condiz com a primavera: o sorriso e a saudade que encontramos na
vida, os amigos que nos esperam na praça e na igreja florida... O saltear dos
sapatos comemoram a vida feliz e um sorriso de graça nos pés de Santa Maria.
Flores,
flores e flores para enfeitar o andor de Jesus Cristo Redentor. Tudo passa na
vida menos o Nosso Senhor... Tempo que se consome nas portas fechadas de
alguém, trancafiadas em si mesmo chorando a ingratidão. Tempos que passam
floridos, tempos que passam sem cor, tempos de amizades são tempos que já
passou. Onde se encontra a verdade na íris molhadas de prantos? Onde mora a
velhice nos olhos bonitos da gente?...
O mundo toca
o seu canto nos pés de asfaltos queimantes... O mundo não se arrepende de
indigentes nas ruas, levando a mão pedinte para comer escondido nas sarjetas da
vida... Ninguém lhe dá o abrigo do qual Jesus referia nas suas palavras santas
de amor e harmonia.
A
primavera chega contente, jorrando brisas mais calmas para a noite ficar
silente. Um passarinho da hora procura lugar para um sonho, encontrando um
abrigo na catedral da igreja até chegar a hora da revoada do dia, quando a
passarada acorda ao som da Ave Maria. As flores da nossa terra embelezam
quintais e janelas de vitrais e quem ali passa suspira encantado das flores
viçosas de perfumes sem iguais e lindas aquarelas de cores que Deus criou para
nós.
A
noite da primavera é quieta até começar a cantoria da madrugada festiva, de
violões afinados tocando músicas de amor... Risadas cortando a cantata e um
beijo da lua no céu estrelando o firmamento de estrelas, cantando poesias na
noite nobre e noite fria... No calendário da vida jasmim, hortênsia,
rosa, hibisco, dama-da-noite, violeta e narciso, boca-de-leão e girassóis que
rodam, que rodam, pelos quintais, procurando o sol para espalhar suas sementes.
Tão
linda a primavera!... Tudo é muito belo e ameno ao longo desta estação!... As
pessoas caminham nas ruas felizes como crianças e os namorados dão-se as mãos,
como se carregassem a própria vida na vida de uma inspiração de
primaveris singelezas que nascem no coração.
AI QUE SAUDADE DA
AMÉLIA
Neumar
Monteiro
Saudade
de tantas Amélias que se foram desta vida, que cuidavam do lar e educavam seus
filhos sem retribuição ou reconhecimento. Amélia que era mulher de verdade na
singeleza de seu cotidiano do fogão a lenha ao ferro a brasa. Vestida de
algodão e calçando chinelas, que mulher era aquela que tinha tanta força muito
embora o silêncio das suas palavras?
Outro
tempo, quando os caminhos eram sombreados por árvores frondosas que emendavam
sua folhagem como uma colcha de retalhos verdes. Hoje quase não temos verde,
nem o vermelho-amarelo das frutas de estações.
Ainda bem que restaram as
mangas, apesar de todo um alfabeto de destruição que vai dos araçás à zamboa, fruta
cítrica semelhante à cidra. Citando uma frase antiga diríamos que tudo foi pra
“A Tonga de Mironga do Kabuletê”, como registrou o compositor Toquinho que
ouviu a expressão na casa de Vinicius de Moraes em Salvador, na Bahia,
equivalente a um xingamento nagô de uma tribo oriunda da África. Virou febre e
enlouqueceu platéias.
“Ai
que Saudade da Amélia”, dos compositores Mario Lago e Athaulfo Alves, de 1941,
continua um sucesso mesmo transcorrido tantos anos. Além da nostalgia que nos
traz o samba, lembra-nos que a sabedoria de toda uma geração de Amélias forjou
a mulher moderna, sem preconceitos, que firmou sua igualdade perante o mundo.
Hoje dirige carros importados e segue com sucesso o rumo que lhe aponta o
nariz.
O
mundo mudou, e o termo “Repimboca da Parafuseta” sumiu do linguajar dos
mecânicos. Tal termo era aplicado quando não se conseguia identificar o defeito
de um carro. Era chique e não significava coisa nenhuma, só uma maneira de
enrolar o dono do veículo. Apenas o registro de uma curiosidade daqueles
tempos.
Tantas
coisas interessantes e preciosas de um passado recente já que se pode ser
lembrado. Somente o que se esquece vira passado; o que se lembra vira
lembranças.
Da
tonga de mironga até a repimboca da parafuseta o mundo deu muitas
voltas: o Brasil elegeu o Lula, Estados Unidos o Barack Obama, Bom
Jesus não resolveu a eleição e o pãozinho de sal não cabe no bolso dos pobres.
Tudo na mais perfeita ordem, tudo na mais santa paz, como canção de Toquinho e
Vinicius.
INCERTEZAS
Neumar
M. Silveira
Já não sei quem sou,
nem o que fui.
O que serei já não me importa.
Sou vaga no mar, sem rumo.
Sou praia do amor, deserta !
Sem lira, perdida no caos
do abandono
não sei quem fui,
nem serei quem sou.
Nauta perdido em proceloso mar,
sem pátria, sem dono,
sem onde ancorar.
Se fui, se fiquei, já nem sei.
Meus sonhos vogando,
sem cais, sem abrigo.
De leste a oeste, de noite ou de dia,
sou barco sem porto,
sem tristeza ou alegria.
Um dia, quem sabe
futuro distante,
eu possa aportar-me
no cais do amor.
Serei ser ditoso,
já sem incertezas,
feliz, venturoso, isento de dor !
DIANTE DA CIDADE
Neumar
Monteiro
(Recriação do poema do Eichendorff,
poeta alemão)
Vem chegando de longe
a canção peregrina
dos poetas da estrada,
os saltimbancos dos sonhos.
Dois amigos cantores,
saídos da floresta,
trazendo em seus alforjes
amor e esperança
A cidade, adormecida,
não ouve essa mensagem
que se propaga ao vento
da triste noite fria.
Ninguém acolhe o canto
nem ouve esse lamento.
Nem mesmo uma criança
descerra uma janela.
SEM RUMO
Neumar
M. Silveira
Sinto-me perdida
no caos deste abandono.
Qual andarilho sem teto
a caminhar errante,
procuro sem ouvir
o mundo que me chama.
Eu sei o quanto é árdua
esta jornada perdida.
Mas, por mais que se interponham
os obstáculos da vida,
procuro o mundo belo
onde floresce o bem.
Pois sei que é neste mundo
onde deste belo habita,
que repousa esta paz
que minha alma aflita
procura nas estrelas
por não achar na terra.
REMINISCÊNCIAS
Neumar
M. Silveira
Era um pobre palhaço de chita
desbotada.
Hoje é um punhado de espuma
apodrecida!
Vivia calado e eternamente
acabrunhado
num canto qualquer de um
guarda-roupa, guardado.
Por que vivias assim, palhaço meu?
Bem sei que eras em tudo diferente
dos outros palhaços do
mundo !
Pedaços feitos de espuma da ilusão !
Pedaços feitos de sonho, sem coração.
Trocastes os dias da glória e de
esplendor
de um palhaço de verdade,
para ser o amigo fiel e vigilante,
mudo expectador de minha vida
cotidiana.
Preferiste às glorias de um pedestal
a imortalidade de uma vida triste e
descolorida,
a ficar eternamente a criatura
preferida !
Quantas vezes escutaste o
meu choro,
ouviste os meus lamentos?
Quantas vezes em noites mais felizes
escutaste as serenatas mais bonitas
e velaste o meu sono de criança?
Quantas vezes, palhaço meu, quantas
vezes?
Quantos sonos vigiaste !
Ah ! Quantas noites insones, vendo a
infância,
a adolescência, a vida !
E agora, palhaço meu, responda-me:
Quem me guiará pelos caminhos
tortuosos da vida?
Silêncio ! Ninguém
respondeu.
O palhaço morreu
PERDAS DE BOM JESUS
Neumar
Monteiro
Não
precisamente nesta ordem, mas o fato é que entre outras, Bom Jesus do
Itabapoana vem perdendo muitas coisas que poderiam ser evitadas pelas
autoridades constituídas ou, também, pelo grito do povo, porque o trato com a
coisa pública é também obrigação nossa: os pioneiros que aqui desbravaram as
campinas e trazendo escravos queriam outras coisas desta cidade, como uma
cidade pioneira, alvissareira e elegante esbanjando moda, florescendo em cada
rua begônias, azaléas e palmeiras ou outras tantas que viessem dar o show de elegância
nas varandas e quintais de cada casa.
Este
tempo passou no calendário, escurecendo a alegria de antes. Agora na Festa da
Cidade é somente um palanque na Praça Governador Portela gritando palmas roucas
sem maior alegria, “Palmas Mudas”, de um ou outro que ali passa. Perdemos
metade das barraquinhas que se alojavam na beira-rio: antes eram lindas e
iluminadas, cantos de sanfoneiros que o dono pagava para chamar o povo; as
pessoas que ali passavam sempre pediam cantigas para lembrarem-se do amor...
Assim
era a nossa Festa que deleitava a noite e o dia que ia nascendo, agora é
diferente: A alegria sem dono, televisão despontando ao amanhecer até a noite,
neste calor de verão... Perdemos tantas festas que a cabeça atormenta. Citamos:
Festa do Noé – Festa á Fantasia – Festa do Sinal
– Santa Festa – Festa Junina do Olímpico, Progresso e Aero
clube – Festival de Música – Festival do Chope
– Seresta nos Bares – Rali na Praça Gov. Portela – Vôlei de
Areia na Praça Gov. Portela - Dia do Desafio - Olímpiada Estudantil
– Festival de Sorvete e da Pipoca – Campeonato de Vôlei
– Baile das Debutantes – Baile das Dez Mais
– Baile da Saudade – Baile de coroação da Rainha da Festa de Agosto
- Carnaval de Salão e de Rua – Ginásio Zélia Gisner
– Colégio Rio Branco – Colégio MV1... Perdemos muito do
que era antes, não sei se no futuro próximo a consciência urbana muda de
caminho para repensar no que era ontem e o agora.
Tudo
passa na cabeça do povo... Porém, ninguém grita aceitando a renúncia desta
terra... Talvez, adiante, o povo que tanto trabalha cuidando das marmitas,
possa, também, tratar dos festivais para carnavalescos que vêm de longe para
alentar os dias do Rei Momo... Como não? As pastorinhas sempre estão esperando
rapazes bonitos para melhorar o passeio.
Nunca
exaltaremos Bom Jesus com os braços cruzados, porém alguém tem que lutar pelo
nosso pedacinho de terra, pela bênção da Igreja Matriz, do laguinho da entrada
da cidade, pelas casas bonitas que aqui valorizamos, pelo Coral “ AMANTES DA
ARTE “, pelos Colégios que aqui temos e pelo Calvário que de cima do morro
abençoa brancos e negros deste povo varonil. Sinto que neste pequeno Município
não há pobre ou rico, todos trabalhamos no dia-a-dia pela prosperidade desta
terra querida.
Vai
e vem o sino da praça embelezando a manhã, como gotas de felicidade entrando de
casa em casa com uma linda sonoridade anunciando o amanhecer. Não há quem não
gosta desta gente!... Um povo risonho e prestativo, lutando pela felicidade,
estudo, amizade e harmonia em busca da alegria de hoje, de noite e de dia;
crianças correndo valentes na escadaria da igreja; um bispo levantando a mão
para acolher os menores, crianças, velhos e outros tantos que precisam de apoio
para que a felicidade se espalhe na cidade de “Bom Jesus do Itabapoana”.
Alguém
canta, canta e canta, pisando na escadaria... Uma senhora ajoelhada chorando as
mágoas do peito chamando alguém que lhe dê a mão de guarida, nem sempre,
nem sempre... Amor e dor só Jesus
Cristo!
Que
venham as procissões domingueiras! A faceirice maneira de usar o véu branco
cobrindo a face, não como disfarce, porém, como a genuína vontade de espiar
suas dores e temores até a procissão
passar.
SER SACERDOTE
Neumar
Monteiro
(Dedicado ao estimado Pe. Vicente
Osmar Batista Coelho)
Ser Sacerdote é receber de Cristo
a bênção Divina do perdão.
Repartindo dia a dia o pão da vida
e o sangue da eterna salvação.
Ser Sacerdote é ouvir silente
tanta indigência posta em confissão!
Perdoando, em Cristo, o penitente,
restituindo-lhe puro o coração.
Ser Sacerdote é dar a própria vida
em sacrifício pela nossa salvação!
É ser templo, ser gente, ser carinho
alma contrita por nós em oração!
Pela sua missão, rendemos graças
pela humildade, pela pureza e pelo
amor.
A estrada está aí, a messe farta:
A colheita é de Cristo, você o
lavrador!
NOSSO AMOR
Neumar
Monteiro
Nosso amor foi passageiro
como um grito na montanha.
Passou. Simplesmente,
Sem deixar vestígios ou ecos.
Grito perdido de alguém
que ousou falar de amor
a uma montanha, inóspita e surda.
O grito se perdeu na boca do vento
e o coração se fechou
às lufadas da brisa.
Hoje, o silêncio é feito
de soluções sufocados
e de coisas mortas.
silêncio de montanha.
Há cheiro de mofo no ar
e um som indecifrável de sepulcro.
Passou o amor, findou a vida.
A montanha continua inerte
à espera de outros gritos.
CONSTATAÇÃO
Neumar
M. Silveira
Para meu querido esposo, Paulo Rodrigues
da Silveira
Quando o tempo
de prata tingir
os teus cabelos,
hás de sorrir
lembrando a mocidade.
Pois as aflições que
ora te atormentam,
no futuro se chamarão
saudades !
Talvez que agora
as lutas e as tristezas
apaguem o teu sorriso
e ofusquem o teu olhar.
Mas quando a neve do tempo
sufocar teus vãos anseios,
verás que a existência
é muito curta
e não vale a pena
chorar !
Quando as flores juvenis,
pelo outono derradeiro
fenecerem no chão
já desvalidas,
hás de vê-las reflorir
num corpo de criança,
renascendo no seu filho
a tua própria vida !
TIMIDEZ
Neumar
M. Silveira
Tímidos os seus lábios,
tímidos o seu sorriso.
Palavras incertas de alguém
que veio de longe, para deitar raízes
nas terras inexploradas do meu ser.
Sua pele morena e dourada
trouxe-me paz.
Paz feita de certeza.
Paz feita de amor.
Em que lugar do meu ser
ficou a mágoa ?
Esquecida ficou nos dias tenebrosos.
Agora tudo é paz
das coisas encontradas.
Amada paz !
MEU POEMA
Neumar
Monteiro
Meu poema é feito de suor
e de lágrimas.
Suor, de um povo incompreendido
e explorado.
Lágrimas de exaustão e
sangue.
Dos alfarrábios
escorem leis,
leis que não dizem
nada de hoje.
Só leis. Distantes e sufocadas
em papéis carcomidos pelo tempo.
Meu poema é feito de barro
amassado com suor e o sangue dos
oleiros.
É um poema triste, frio e sem sonhos.
Como modelar belezas sobre
a podridão das fossas?
Como cantar canções de musas
para ouvidos moucos?
Meu poema é a voz
dos sepultados e dos calados.
Canto de além-túmulo
e dos braços cadavéricos.
Canto dos que morrem a cada dia
semeando e cavando o trigo.
Mas é preciso cantar!
Antes que a garganta seque,
com a poeira das fábricas,
e o som morra.
É preciso cantar o tudo ou o nada,
não importa.
O importante é escrever poemas
e morrer cantando.
ESPERA
Neumar
Monteiro
É inútil chorar
quando o sonho termina.
É inútil sofrer
as ilusões perdidas.
Até as pedras se encontram
No caminho da vida,
por que não hei
de encontra-lo um dia?
Fui fugaz amor
o sonho que vivemos.
Como pássaros em revoada
nos perdemos
na imensidão de nuvens
que cobriram o nosso amor.
Mas eu sei,
algo me diz
que vou revê-lo um dia.
E o mundo inteiro ouvirá
o gorjeio de alegria
de pássaros que voam
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